Óbidos no início de novecentos: A Ponte do Arrabalde (2)
Continuando a nossa viagem rumo a Óbidos, fomos obrigados por Jorge de Almeida Lima a fazer um último desvio. Quase a chegar ao Arrabalde, o nosso fotógrafo reparou num grupo de pessoas lá em baixo, nas margens do Arnóia, e não perdeu a ocasião de captar o registo que partilhamos hoje.
À sombra das árvores que rodeavam a velha Ponte do Arrabalde, três mulheres inclinam-se sobre o leito do rio, ocupadas a lavar o seu enxoval. Estamos algures entre 1905 e 1916 e, tal como no Senhor da Pedra, a câmara não passou despercebida: atraiu a curiosidade das duas meninas que, sentadas na areia, parecem esperar que as mães atarefadas lhes devolvam a atenção; e animou alguns rapazes que, talvez tentando impressionar o fotógrafo, trataram de se empoleirar no parapeito da ponte.
Encontramo-nos perante um cenário desaparecido. Há muito que o automóvel moderno impôs a reconstrução da Ponte do Arrabalde, hoje oculta pelo tabuleiro da Estrada Nacional, e que os seus arcos deixaram de abrigar as gerações de obidenses que, durante séculos, lavaram roupa nas águas do Arnóia.
Em tempos mais remotos, as lavadeiras profissionais foram uma personagem indissociável do quotidiano de Óbidos. O Arquivo Histórico preserva vários testemunhos da atividade dessas trabalhadoras, documentada pelos inventários de partilhas que registavam os bens e as dívidas dos moradores da vila. Percorrendo as páginas amareladas desses processos, encontramos casos como o de Francisco Rodrigues, lavrador residente na Rua dos Fornos (atual Rua do Hospital), que morreu em 1648 sem pagar “[à] lavandeira filha de Domingos Fernandes settecentos Reis”; o de Maria Correia, que ao enviuvar em 1675 “disse [que] devia [à] lanvandeira da lavagem da ropa mil e duzentos reis”; ou o de João de Lemos, alfaiate da Rua do Poço, falecido em 1677 com várias peças de roupa “em poder da lanvandeira M.ª Francisca”.
Não sabemos os nomes das pessoas que vemos na fotografia de hoje. Mas será que foram mesmo perdidos no tempo? Ou haverá quem ainda se lembre de ter conhecido aquela mulher que, de traje negro e aparência jovem, levantou a cabeça para nos olhar através da lente de Jorge de Almeida Lima?
Para saber mais sobre Jorge de Almeida Lima e as suas fotografias de Óbidos, consulte o nosso primeiro artigo: https://pracacommemoria.obidos.pt/2026/06/16/obidos-no-inicio-de-novecentos-o-olhar-de-jorge-de-almeida-lima/
Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT)
Fundo Jorge de Almeida Lima, cx. 111, doc. 3433 – Sem título (s. d.)
Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Óbidos (AHCMO)
Inventários de Partilhas do Juízo dos Órfãos do Concelho de Óbidos, doc. Obi012 – Inventário de partilhas de Francisco Rodrigues (1648)
Inventários de Partilhas do Juízo dos Órfãos do Concelho de Óbidos, doc. Obi047 – Inventário de partilhas de Simão Correia (1675)
Inventários de Partilhas do Juízo dos Órfãos do Concelho de Óbidos, doc. Obi050 – Inventário de partilhas de João de Lemos e de Maria Leal (1677)
Colaboração Rafael Aprato
