Entre 1905 e 1916, os habitantes de Óbidos acostumaram-se às visitas de um turista curioso, que de tempos a tempos percorria as ruas da vila e se empoleirava nas muralhas de câmara fotográfica nas mãos. Nada de novo para uma terra que já se habituara a figurar em postais ilustrados, mas o olhar de Jorge de Almeida Lima era diferente.

Filho de proprietários agrícolas abastados, Jorge de Almeida Lima nasceu em Lisboa em 1853. Embora se tenha dedicado à exploração das quintas que herdou, desenvolveu um interesse paralelo pela arte fotográfica, tornando-se sócio da Academia Portuguesa de Amadores Fotográficos em 1887 e integrando em 1907 a primeira direção da Sociedade Portuguesa de Fotografia. A sua obra demonstra uma sensibilidade particular pelo retrato humano no contexto rural, aparente nos vários negativos que retratam os trabalhadores da sua quinta no Seixal na década de 1880.
Foi, portanto, com décadas de experiência no meio fotográfico que se estabeleceu em 1905 nas Caldas da Rainha, onde manteve uma residência até 1916. Período que aproveitou para enriquecer o seu volumoso arquivo pessoal com clichés da região, incluindo cerca de uma centena de fotografias do castelo, dos templos, das ruas e dos habitantes de Óbidos.
Se a sua preocupação principal é o registo do património histórico da vila, o que o destaca da maioria dos fotógrafos da sua época é o interesse genuíno que parece mostrar pelas pessoas que vivem na sombra desses monumentos. Alguns obidenses de trajes típicos já tinham figurado em pinturas e postais, mas quase sempre remetidos ao cenário de fundo de cenas pitorescas; em contraste, Jorge de Almeida Lima também os captura em primeiro plano, e não afugenta (ou não consegue afugentar) os grupos de crianças curiosas que, atraídas pela sua câmara, parecem persegui-lo pelas ruas. A coleção resultante é duplamente valiosa documentando tanto aspetos há muito desaparecidos do património construído de Óbidos, como também os trajes, as lides quotidianas e os rostos dos obidenses que viveram o ocaso da monarquia.

Aproveitando a sua divulgação recente pela Torre do Tombo, iremos partilhar algumas destas fotografias nas próximas semanas. Acompanhe a nossa viagem no tempo, e venha visitar Óbidos do início de novecentos através do olhar de Jorge de Almeida Lima.

Agradecemos aos técnicos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo pelo trabalho de preservação e divulgação das imagens.

Colaboração: Rafael Aprato