Óbidos no início de novecentos: o Cruzeiro da Memória (4)
Na fotografia que partilhamos hoje, Jorge de Almeida Lima retratou um dos monumentos mais misteriosos de Óbidos no seu contexto original: a pequena Ermida do Cruzeiro da Memória, à beira da velha Estrada Real e rodeada ainda por uma paisagem campestre.
Embora a memória local associe o Cruzeiro à tomada de Óbidos por D. Afonso Henriques, os estudiosos do início de novecentos já notavam que as suas caraterísticas apontavam para uma construção quinhentista. Terá sido erguido em substituição de uma cruz mais antiga? Em 1907, o poeta e arqueólogo Sousa Viterbo dedicou algumas páginas ao enigma no Boletim da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes:
“O cruzeiro, tendo de um lado a Senhora da Piedade com seu filho nos braços, e no outro Christo crucificado, assenta sobre uma peanha de tres degraus, na qual se lê uma inscripção em caracteres gothicos, já carcomidos, que em tempos, dizem, o beneficiado Malhão, grande orador sacro, interpretára da seguinte maneira:
«Em memoria da tomada de Obidos por assalto pela porta da traição por D. Affonso Henriques, rei christão em 10 de janeiro de 1148.»
Duvidamos que esta inscripção seja authentica ou a sua interpretação fidedigna. Já se vê que não é coeva de D. Affonso Henriques, pois neste caso a linguagem deveria ser latina. Além disso, o estylo do cruzeiro, sendo manuelino, como afirma o sr. Giner de los Rios, é claro que a obra não póde ser anterior aos principios do seculo XVI. Havendo outros cruzeiros do mesmo genero, de intuito unicamente piedoso, chegamos a duvidar se a este se teria dado simultaneamente uma significação historica.
Malhão, além de excellente pregador, era poeta de valia e delle é um bello soneto, que se chegou a pintar no interior das paredes do alpendre que encerra o cruzeiro, mas que hoje já não se lê, porque irreverentemente o caiaram.
Encontra-se, porém, estampado na «Lyra Christã» e é do teor seguinte:
«Caminhante, suspende um pouco os passos,
«Fita os olhos no quadro doloroso
«Da terna Mãe que o Filho affectuoso
«Sustenta morto sobre os debeis braços.
«O Filho, que dos celicos espaços
«Veiu remir o mundo criminoso,
«Exposto no patibulo afrontoso,
«Quebrou da raça humana os ferreos laços.
«Salvé! lhe diz, oh Mãe da humana gente,
«De piedade e de amor foco divino!
«A voz do passageiro ouve clemente:
«Resa a «Salvé», oração do Peregrino;
«Pede-lhe a bênção, curva humilde a frente,
«Faz o signal da Cruz, vai teu destino.»
As duas entradas da especie de capella, que protege o cruzeiro, não estão vedadas, e por isso este já tem sofrido mutilações, a que se deveria pôr cobro quanto antes, para se evitar a sua completa ruina.”
O conselho de Sousa Viterbo foi respeitado, e as décadas seguintes viram a colocação das grades que hoje protegem o seu interior. O poema de Malhão, no entanto, não foi recuperado. Estará ainda oculto sob a cal do velho alpendre?
Para saber mais sobre Jorge de Almeida Lima e as suas fotografias de Óbidos, consulte o nosso primeiro artigo: https://pracacommemoria.obidos.pt/2026/06/16/obidos-no-inicio-de-novecentos-o-olhar-de-jorge-de-almeida-lima/
Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT)
Fundo Jorge de Almeida Lima, cx. 72, doc.1601 – Óbidos: cruzeiro (s. d.)
Viterbo, F. M. S. 1907. Cruzeiros Notaveis. Boletim da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, 4.ª Série, Tomo XI, N.º 3 (Julho a Setembro), pp. 191-199.
Colaboração: Rafael Aprato
