Óbidos no início de novecentos: o Arrabalde (3)
Depois de passarmos pelo Senhor da Pedra e pela Ponte do Arnóia, hoje partilhamos finalmente um dos panoramas da vila de Óbidos captados por Jorge de Almeida Lima, que fotografou o Arrabalde numa manhã solarenga de 1905.
Como seria visitar Óbidos neste início de século, longe ainda das grandes intervenções que devolveram os merlões às suas muralhas a partir dos anos trinta? A Comissão de Iniciativa e Turismo local só seria fundada em 1928, mas a verdade é que a vila pitoresca já começava a atrair um fluxo crescente de forasteiros, alguns dos quais nos deixaram relatos escritos das suas visitas.
Aproveitamos a fotografia de hoje como pretexto para partilhar as memórias de um desses precoces turistas. De passagem pela vila em 1905 com o seu contingente militar, o oficial Belisário Pimenta registou as impressões seguintes num caderno de viagens hoje guardado na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (e que aqui transcrevemos na grafia original):
“1905: 20 de dezembro
A viagem até Óbidos não teve nada de notável; encafuado numa carruagem qualquer, limitei-me a conversar e a dormir.
Em Obidos quando a força formou e o comboio partiu, apareceu-me em frente o castelo, sobre o monte escarpado, iluminado já pelo luar. Não podia desejar mais; e quando saimos com a força e contornámos o monte para entrarmos na vila – a beleza que eu achei aquelas cortinas de muralha ameiada, cortada de torres rectangulares que se recortavam no ceu luarento!
Entramos pela porta funda, abobada, com nichos de azulejos, para a historica vila; percorremos, á luz da lua, uma rua estreita e sinuosa até a um casarão onde os soldados ficariam; e depois destes terem ficado arrumados, fomos á procura da casa da D. Isabel, uma velhota hespanhola que se encarrega de receber os oficiais que por ali passam em serviço.
Já era tarde; o capitão e eu despedimo-nos; cada um se foi deitar; e eu adormeci a pensar na serie de rainhas que por ali passariam como senhoras da terra e na triste gafaria que a piedade da Rainha Santa (salvo erro) ali instituiu.
Não dormi muito.
No dia seguinte, de madrugada, choviscava; a manhã estava triste; mas eu saí surrateiro da casa e fui ver a vila.
Que curiosa que é a vila! Dentro do cinto de muralhas, na encosta dum monte que para o nascente desce suavemente mas que para o poente é abrupto e inacessível, a vila de Obidos conserva ainda uma feição arcaica que interessa o mais indiferente. Ruas estreitas; numa casa uma janela de lavores manoelinos; noutra uma simples ogiva; adeante um recorte gotico; aqui um pitoresco balcão; alem uma[s] colunas deslocadas de qualquer parte sustentando um alpendre; e por sobre os telhados, á volta de nós, os dentes das muralhas poderosas que iam terminar, no alto do monte, no fortissimo castelo medieval.
Á volta, pelo largo, campos amplos sem beleza mas fecundos; montes uniformes fecha o horizonte; em baixo serpeia a linha ferrea a rir-se da velhice do colosso de pedra…”
Para saber mais sobre Jorge de Almeida Lima e as suas fotografias de Óbidos, consulte o nosso primeiro artigo: https://pracacommemoria.obidos.pt/2026/06/16/obidos-no-inicio-de-novecentos-o-olhar-de-jorge-de-almeida-lima/
Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT)
Fundo Jorge de Almeida Lima, cx. 111, doc. 3424 – Sem título (1905)
Pimenta, B. 1922-1944. Passeios e viajatas: notas ligeiras [Manuscrito]. 2 vol. Coimbra: Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.
Soares, C. M., & Neto, M. J. 2013. Óbidos: de «Vila Museu» a «Vila Cultural» – Estudos de Gestão Integrada de Património Artístico. Casal de Cambra: Caleidoscópio.
Colaboração de Rafael Aprato
